Traduzido de ALT1040
Texto de Pepe Flores

Não seu programador. Ainda que me pareça fascinante o mundo da informática, quando tentei aprender uma linguagem de programação por conta própria, terminei abandonando por uma quantidade inumerável de pretextos. Que não tenho tempo, que é complicado, que tem muita informação para processar. Desculpas. Programar é algo que qualquer pessoa pode fazer (mas não qualquer tem a disposição de aprender). Requer criatividade, inteligência, curiosidade e esforço. Necessita paixão, imaginação, planejamento e improvisação. Mas, mais que nada, se deve ter vontade, como em toda atividade humana.

Faz um ano iniciei uma start-up com uns amigos. Me cerquei de uma equipe excepcional de programadores. Durante os meses de desenho do software, aprendi centenas de lições valiosas, impossíveis de resumir em algumas poucas linhas. Mas, antes de tudo, descobri que o trabalho do programador não perde nada em criatividade de um artista ou a disciplina de um matemático. É a pura faísca de criação, o converter de uma ideia em algo plausível, executável, real. Como diria outro amigo, se convertem litros de café em linhas de código, e as linhas de código em um programa novo, vivo.

Durante esta etapa, entendi como pensar (um pouco) como desenvolvedor. Se aprende a olhar as coisas desde outra perspectiva, desde como fazer possível algo com os recursos que se conta. A observar as possibilidades, a convertê-las em uma série de passos para executar algo, encontrar soluções. Quem tenha criado um software sabe das noites sem dormir e das listas de requerimentos quilométricas. Se aprende a pensar um passo adiante, porque o usuário final, em sua inteligência desajeitada, é capaz de encontrar uma imperfeição, um erro, um conflito em um sistema que consideramos a prova de tolos. Tem que prevenir antes de lamentar.

Não aprendi a programar em nenhuma linguagem, mas sim o mínimo de algumas. E, sobre tudo, a lógica que existe por trás. Isso é importante, porque como diria Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Para muitos, o que faz o computador, o telefone ou qualquer dispositivo nos pode parecer questão de feitiçaria. Não é. É resultado de esforço e a mente de milhares de pessoas. Entender os conceitos por trás desta aparente magia nos ajuda a ser mais críticos, mais analíticos, mais compreensivos. Inclusive, mais curiosos e arriscados. Assim como a ciência nos ajuda a entender a natureza, a informática nos explica este mundo virtual que nos rodeia.

Faz um par de dias, li que ensinar a programar aos filhos será equivalente a ensinar a andar de bicicleta. Concordo. Programar vai mais pra lá de escrever linhas e linhas: é uma forma de entender o mundo como criador. Por isso penso que este pensamento crítico deve ser ensinado desde o berço, mas também, que é uma habilidade indispensável para qualquer pessoa. Não necessitamos ser o seguinte Stallman, Torvalds ou Gates. Basta com que, por simples curiosidade, necessidade ou atrevimento, nos animemos a descifrar estas frases aparentemente ininteligível que lhe dão forma a nossa realidade virtual. Nunca é muito tarde (nem muito cedo) para começar.

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